Marco Fernandes 1
Estamos sendo enganados?
A clássica jornada de 8 horas diárias de trabalho, outrora um direito conquistado - com muito sangue, suor e greves - pelos trabalhadores dos países industrializados, no centro e na periferia do sistema, vem se tornando um privilégio nos últimos anos. A falta de tempo pra família, pro lazer, ou simplesmente pro descanso, é uma das maiores queixas dos trabalhadores em todo o mundo, e os índices de stress no trabalho já atingem patamares assustadores, a ponto de serem tratados como “epidemia” pelas instituições de saúde ao redor do mundo: a Organização Mundial da Saúde, por exemplo, já declara oficialmente que o stress é o “mal do século”.
Mas como é possível que, após décadas de desenvolvimento tecnológico, após dois grandes surtos de produtividade ao longo do século XX (fordismo, a partir da década de 10, e “toyotismo” combinado com a “revolução microeletrônica”, a partir dos 60), trabalhemos mais horas por dia hoje do que há 20 ou 30 anos? Como é possível que entremos no século XXI com jornadas de trabalho cada vez mais próximas do “distante” e “atrasado” século XIX, quando, sem nenhum direito trabalhista, os operários e operárias chegavam a trabalhar 14 ou 16 horas por dia? Uma das promessas do capitalismo não era a possibilidade de aumentar o “tempo livre” dos indivíduos graças ao avanço tecnológico? Mais máquinas, menos trabalho...Não era nisso que confiava Keynes (o economista britânico que ajudou a salvar o capitalismo da grande crise de 1929), quando supunha, ainda na década de 30, que por volta do ano 2000 os ingleses trabalhariam não mais do que 15 horas por semana?
Sim, estamos sendo enganados!
Supostamente, o controle e a economia do tempo na produção são duas das leis fundamentais do sistema: o sonho de todo capitalista que se preze é produzir cada vez mais mercadorias em cada vez menos tempo, diminuindo seus custos e aumentando suas taxas de lucro; mas, para que isso funcione, precisa contar com um rígido esquema de controle dos tempos da força de trabalho, seja por meio da “linha de montagem”, dos cronômetros, dos relógios de ponto ou dos brutamontes contratados como “seguranças”. Foi por isso que Henry Ford se tornou um dos heróis da história do capitalismo. Até 1910, um automóvel era construído praticamente por um operário sozinho, quase à maneira de um artesão, que levava, em média 12 horas e meia para cumprir a tarefa. Entre 1910 e 1914, primeiro com a divisão de tarefas na fábrica, depois com a adoção da linha de montagem (a famosa esteira rolante), Ford diminuiu para 1 hora e meia o tempo de fabricação de seus “Ford-bigode”. Ficou bilionário, revolucionou os métodos de produção e entrou para a história.
Os defensores do capitalismo diriam que o exemplo de Ford é o paradigma do “sucesso” deste sistema. Suas inovações resultaram numa maior eficiência do uso do tempo de seus operários e, conseqüentemente, numa economia de tempo na produção. O exemplo demonstraria então que o modo de produção capitalista prima pela otimização do uso social do tempo. Será mesmo? Vejamos apenas dois exemplos banais.
Segundo dados divulgados pela ONU, no ano de 2006, a produção de alimentos no planeta seria suficiente para alimentar a incrível cifra de 12, 7 bilhões de pessoas. Ora, somos somente 6 bilhões de seres humanos em todo o planeta. Que uma pessoa sequer ainda passasse fome diante do que é produzido no mundo, já seria um absurdo. Que mais de 1 bilhão de pessoas ao redor do planeta passem fome todos os dias (segundo a própria ONU), é um disparate inaceitável. Isso não só revela a perversidade de um sistema onde a abundância convive com (e necessita da) miséria para se reproduzir, mas também nos demonstra que, ao contrário do que pregam seus ideólogos, o capitalismo não passa de uma gigantesca máquina de desperdício de tempo.
É matemática básica: se somos 6 bilhões e produzimos comida para 12 bilhões, significa que metade do tempo gasto mundialmente na produção de alimentos é absolutamente inútil. Não se justifica pelas necessidades humanas, mas tão somente pelos interesses privados dos empresários do setor alimentício. Toda essa energia, todo esse tempo de trabalho, poderiam ser aproveitados em outros setores da produção, ou então se converterem em mais tempo disponível para os trabalhadores do campo. No entanto, tudo se perde no ralo sem fundo da economia de mercado, enquanto milhões morrem de fome ao redor do mundo...E não falamos de uma exceção, mas sim da regra que regula o sistema, e que pode ser comprovado em inúmeros outros setores da economia.
Tudo isso é possível porque o sistema capitalista, antes de se caracterizar por uma busca de maior eficiência na produção e distribuição de mercadorias, se caracteriza por uma busca incessante pela eficiência na dominação e no controle da força de trabalho. Altos índices de desemprego, como se constata hoje em praticamente todo o mundo, podem ter conseqüências nefastas sobre a economia de um país (pra não falar das conseqüências sociais, como o aumento da pobreza, o aumento da criminalidade, dos índices de depressão etc.), mas traz uma óbvia vantagem para os empresários: seus empregados aceitam todo o tipo de precarização, de baixos salários, de jornadas mais extensas etc., pois sabem que há sempre um batalhão de gente na porta da firma em busca de uma “oportunidade” de emprego. Por isso, os sindicatos vêm se enfraquecendo (ou se burocratizando), e perdendo seu poder de barganha diante dos patrões. Os lucros individuais aumentam ao preço do esgarçamento do tecido social.
Agora, imaginemos o desperdício de tempo de trabalho que significa o desemprego, ou o subemprego, de milhões de trabalhadores, cuja força, inteligência e habilidades poderiam ser utilizadas pela sociedade em benefício de todos nós. Imaginemos a economia de tempo que conseguiríamos, e conseqüentemente, o aumento no tempo disponível para cada indivíduo, se repartíssemos o tempo de trabalho entre “empregados” e “desempregados”. “Trabalharmos todos, para trabalharmos menos”, nada mais que o bom senso, virtude absolutamente estranha à lógica do capitalismo.
Mas essa gigantesca poupança social de tempo disponível – dos desempregados e subempregados dos grandes centros urbanos – poderia ser usada contra o sistema? Talvez sim. E nisso poderia residir uma brecha política ainda pouco aproveitada pela esquerda, sobretudo no interior de movimentos populares urbanos de “sem-teto”, “desempregados”, “pelo passe livre”, movimentos que agregam essa massa de gente “descartável” pelo sistema. Não resta dúvida de que somente uma transformação radical da sociedade - chamemos de “revolução”, de “superação do capitalismo” etc. – seria capaz de reverter esse quadro, mas para isso, é preciso pensar no que fazer hoje, amanhã e depois, com vistas à construção dessa transformação. Qualquer mudança na correlação de forças políticas vai precisar, no mínimo, de uma nova fase de ascensão dos movimentos de massa, sobretudo, os das grandes cidades. É nisso que precisamos pensar.
Talvez nunca, na história do capitalismo brasileiro, tenha existido tanta gente com tanto tempo disponível, já que o número de pessoas com empregos “formais” e jornadas regulares de trabalho vem decrescendo a cada dia. De acordo com dados oficiais, mais de 60% dos trabalhadores brasileiros não possuem registro, trabalhando sem nenhum direito ou garantia. Na periferia das grandes metrópoles, esse número é ainda maior (em alguns censos que realizamos em acampamentos de sem teto, não chega a 20% o número de trabalhadores registrados). Nos bairros mais pobres da cidade, vai se tornando raro encontrar alguém que trabalhe todo santo dia. Mas esse tempo disponível é, em princípio, índice de uma tragédia social: ele é sinônimo de desespero, pois nunca se sabe se na semana que vem vai haver trabalho, ou seja, se vai haver dinheiro; grande parte deste tempo, ou é gasto na procura por um “bico” qualquer, ou é desperdiçado nos sintomas da angústia e da culpa do desempregado: em frente à televisão, no boteco da esquina, zanzando sem destino pela cidade, entre outras táticas para tentar se esquecer dos problemas que não parecem ter solução. O que dizer, por exemplo, da massa de jovens, que representam, em São Paulo, nada menos do que 70% dos desempregados, e são hoje o maior combustível para a crescente indústria do crime?
E se toda essa poupança de tempo fosse organizada e canalizada num projeto político de construção do tão sonhado “poder popular”? É verdade que isso já ocorre, embrionariamente, em alguns movimentos sociais (mas também nas milhares de ONGs que infestam as periferias urbanas, cujo interesse, em geral, não vai além de minimizar as cicatrizes deixadas pelo capitalismo selvagem, enquanto simplesmente reproduzem a lógica do sistema). Mas e se, contrariando a lógica de desperdício de tempo do capitalismo, fôssemos capazes de planejar o uso racional de todo esse potencial não aproveitado pela economia de mercado em favor da criação de um instrumento político de organização comunitária e de lutas para as trabalhadoras e trabalhadores, subvertendo a lógica do capital?
Já existem interessantes exemplos deste tipo de organização popular, como é o caso dos movimentos de desempregados na Argentina (piqueteiros), que partindo da reivindicação de uma “renda mínima”, foram capazes de organizar centenas de cozinhas comunitárias, hortas, padarias, confecções, espaços de educação popular, cooperativas de construção civil e de sistema de água, principalmente na periferia de Buenos Aires (mas também no interior do país); ou ainda, o exemplo das “Juntas Vecinales” (associações de moradores) de El Alto, na periferia da capital boliviana, La Paz. Trata-se de uma cidade de 800 mil habitantes, em que até muito recentemente, o pouco que havia de infra-estrutura era praticamente toda construída com o trabalho comunitário das mais de 500 “Juntas”, a partir do velho sistema indígena de “rotação” entre as famílias, em que se divide o trabalho, cabendo a cada uma das famílias das “Juntas” a tarefa de trabalhar por alguns dias, até que outras famílias as substituam.
Tanto num caso, como noutro, fica a lição de que as iniciativas comunitárias de organização desta “poupança social de tempo disponível” - partindo de necessidades primárias não satisfeitas (comida, trabalho, educação, serviços básicos etc.) - se forem politizadas, acompanhadas de permanentes discussões coletivas, em espaços onde confluam trabalho coletivo, organização para lutas, educação popular e atividades culturais e festivas, em espaços onde os sujeitos atuemos e pensemos sobre nossas práticas, que nos ajudem a elaborar o significado destas iniciativas comunitárias e a necessidade de avançar em torno de um projeto político alternativo, podem despertar a capacidade de mobilização popular, um tanto adormecida depois da tempestade neoliberal que varreu nosso continente nas últimas duas décadas (os mais velhos chamariam isto de “soviets” da periferia...)
Não é à toa que os movimentos piqueteiros (apesar de seus limites políticos e do refluxo dos últimos dois anos) foram responsáveis pelas maiores mobilizações na história recente da Argentina, e que El Alto foi o epicentro dos levantes populares que já derrubaram dois presidentes bolivianos nos últimos anos. Para ter força nas ruas, é preciso primeiro ter força no cotidiano da comunidade. O nível de organização de um levante depende da capacidade cotidiana de organização popular. Para isso, é fundamental o controle autônomo do tempo socialmente disponível. Por exemplo, em El Alto, quando da derrubada do então presidente Sanchez de Losada, houve bloqueios das saídas de La Paz que chegaram a durar mais de um mês, causando sérios transtornos aos donos do poder. Isto só foi possível porque as famílias souberam se utilizar, para a luta, do mesmo mecanismo de “rotação das tarefas” que utilizam no dia a dia para construir uma rua, um centro comunitário ou uma horta. Ou seja, trata-se de criar e consolidar espaços onde este tempo disponível possa ser utilizado e vivido de maneira distinta da lógica capitalista, não como um tempo de desespero individual, senão como um tempo de construção coletiva, que possibilite a formação de novas formas de vínculos entre as pessoas, bem distintos dos frágeis vínculos criados pelos interesses do lucro dos patrões 2.
Não se trata de tarefa simples. Esbarramos na falta de recursos e de estrutura, nos poderes locais, que atuam nas periferias a mando dos donos do poder, e também nas nossas falhas de organização. Mas não temos alternativa. Já chegamos ao fundo do poço. E a situação das periferias urbanas, no Brasil e na América Latina, nos reclama respostas urgentes.
Será que ainda dá tempo?
Militante do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST)
O MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) vem tentando, há alguns meses, impulsionar a construção de “núcleos populares” em bairros da periferia sul e oeste de São Paulo, com o objetivo de dar continuidade ao trabalho de base na região, após a realização de duas grandes ocupações entre 2005 e 2007, que chegaram a mobilizar mais de 4 mil famílias. Esse trabalho é facilitado pela referência política que o movimento adquire com as famílias que participaram dos acampamentos, possibilitando a nossa entrada em bairros disputados por distintas forças locais (católicos, evangélicos, narcotráfico, vereadores, ONGs etc.). Seria algo como um “sindicato do povo pobre da periferia”, uma vez que se trata de uma população – os desempregados e precarizados, a maioria do povo da cidade – desprovida de qualquer instrumento de organização e de luta, sem a qual fica difícil imaginar um verdadeiro ascenso das lutas urbanas.
EL TIEMPO DE LA BRECHA EN LA HISTORIA
Sobre el uso del tiempo por el poder popular
Marco Fernandes 1
¿Estamos siendo engañados?
La clásica jornada de 8 horas diarias de trabajo, otrora un derecho conquistado - con mucha sangre, sudor y huelgas – por los trabajadores de los países industrializados, en el centro y en la periferia del sistema, viene volviéndose un privilegio en los últimos años. La falta de tiempo para la familia, para el ocio, o simplemente para el descanso, es una de las mayores quejas de los trabajadores en todo el mundo, y los índices de stress en el trabajo ya alcanzan niveles temibles, al punto de ser tratados como “epidemia” por las instituciones de salud en el mundo: la Organización Mundial de la Salud, por ejemplo, ya declara oficialmente que el stress es el “mal del siglo”.
¿Pero cómo es posible que, luego de décadas de desarrollo tecnológico, luego de dos grandes golpes de productividad a lo largo del siglo XX (fordismo, a partir de la década del ‘10, y “toyotismo” combinado con la “revolución microelectrónica”, a partir de los ‘60), trabajemos más horas por día hoy de lo que hace 20 o 30 años? ¿Cómo es posible que entremos en el siglo XXI con jornadas de trabajo cada vez más cercanas al “distante” y “atrasado” siglo XIX, cuando, sin ningún derecho laboral, los obreros y obreras llegaban a trabajar 14 o 16 horas por día? Una de las promesas del capitalismo no era la posibilidad de aumentar el “tiempo libre” de los individuos gracias al avance tecnológico? Más máquinas, menos trabajo... ¿No era en eso que confiaba Keynes (el economista británico que ayudó a salvar al capitalismo de la gran crisis de 1929), cuando suponía, aún en la década del ‘30, que alrededor del año 2000 los ingleses no trabajarían más de 15 horas por semana?
¡Sí, estamos siendo engañados!
Supuestamente, el control y la economía del tiempo en la producción son dos de las leyes fundamentales del sistema: el sueño de todo capitalista que se precie es producir cada vez más mercaderías en cada vez menos tiempo, disminuyendo sus costos y aumentando sus tasas de lucro; pero, para que eso funcione, precisa contar con un rígido esquema de control de los tiempos de la fuerza de trabajo, sea por medio de la “línea de montaje”, de los cronómetros, de los relojes de punto o de los salvajes contratados como “guardias de seguridad”. Fue por eso que Henry Ford se volvió uno de los héroes de la historia del capitalismo. Hasta 1910, un automóvil era construido prácticamente por un obrero solo, casi a la manera de un artesano, que llevaba, en promedio 12 horas y media para cumplir la tarea. Entre 1910 y 1914, primero con la división de tareas en la fábrica, después con la adopción de la línea de montaje (la famosa cinta transportadora), Ford disminuyó a 1 hora y media el tiempo de fabricación de sus “Ford-bigote”. Se hizo millonario, revolucionó los métodos de producción y entró a la historia.
Los defensores del capitalismo dirían que el ejemplo de Ford es el paradigma del “éxito” de este sistema. Sus innovaciones resultaron en una mayor eficiencia del uso del tiempo de sus obreros y, consecuentemente, en una economía de tiempo en la producción. El ejemplo demostraría entonces que el modo de producción capitalista prioriza la optimización del uso social del tiempo. ¿Será así? Veamos sólo dos ejemplos banales.
Según datos divulgados por la ONU, en el año 2006, la producción de alimentos en el planeta sería suficiente para alimentar la increíble cifra de 12,7 mil millones de personas. Ahora, somos solamente 6 mil millones de seres humanos en todo el planeta. Que siquiera una persona todavía pasase hambre, frente a lo que es producido en el mundo, ya sería un absurdo. Que más de mil millones de personas en el planeta pasen hambre todos los días (según la propia ONU), es un disparate inaceptable. Eso no sólo revela la perversidad de un sistema donde la abundancia convive con (y necesita de la) miseria para reproducirse. También nos demuestra que, al contrario de lo que pregonan sus ideólogos, el capitalismo no pasa de ser una gigantesca máquina de desperdicio de tiempo.
Es matemática básica: si somos 6 mil millones y producimos comida para 12 mil millones, significa que la mitad del tiempo gastado mundialmente en la producción de alimentos es absolutamente inútil. No se justifica por las necesidades humanas, sino solamente por los intereses privados de los empresarios del sector alimenticio. Toda esa energía, todo ese tiempo de trabajo, podrían ser aprovechados en otros sectores de la producción, o entonces convertirse en más tiempo disponible para los trabajadores del campo. Sin embargo, todo se pierde en el colador sin fondo de la economía de mercado, mientras millones mueren de hambre alrededor del mundo... Y no hablamos de una excepción, sino de la regla que regula el sistema, y que puede ser comprobado en otros innúmeros sectores de la economía.
Todo eso es posible porque el sistema capitalista, antes de caracterizarse por una búsqueda de mayor eficiencia en la producción y distribución de mercaderías, se caracteriza por una búsqueda incesante de la eficiencia en la dominación y en el control de la fuerza de trabajo. Altos índices de desempleo, como se constata hoy en prácticamente todo el mundo, pueden tener consecuencias nefastas sobre la economía de un país (para no hablar de las consecuencias sociales, como el aumento de la pobreza, el aumento de la criminalidad, de los índices de depresión, etc.), pero trae una obvia ventaja para los empresarios: sus empleados aceptan todo tipo de precarización, de bajos salarios, de jornadas más extensas, etc., pues saben que hay siempre un batalllón de gente en la puerta de la firma en busca de una “oportunidad” de empleo. Por eso, los sindicatos vienen debilitándose (o burocratizándose), y perdiendo su poder de puja frente a los patrones. Los lucros individuales aumentan al precio del desgarramiento del tejido social.
Ahora, imaginemos el desperdicio de tiempo de trabajo que significa el desempleo, o el subempleo, de millones de trabajadores, cuya fuerza, inteligencia y habilidades podrían ser utilizadas por la sociedad en beneficio de todos nosotros. Imaginemos la economía de tiempo que conseguiríamos, y consecuentemente, el aumento en el tiempo disponible para cada individuo, si repartiéramos el tiempo de trabajo entre “empleados” y “desempleados”. “Trabajemos todos, para trabajar menos”, nada más que buen sentido, virtud absolutamente extraña a la lógica del capitalismo.
¿Pero ese gigantesco ahorro social de tiempo disponible – de los desempleados y subempleados de los grandes centros urbanos – podría ser usado contra el sistema? Tal vez sí. Y en eso podría residir una brecha política aún poco aprovechada por la izquierda, sobre todo en el interior de movimientos populares urbanos de “sin-techo”, “desempleados”, “por el pase libre”, movimientos que suman esa masa de gente “descartable” por el sistema. No queda duda de que solamente una transformación radical de la sociedad - llamémosla “revolución”, “superación del capitalismo” etc. – sería capaz de revertir ese cuadro, pero para eso, es preciso pensar en qué hacer hoy, mañana y después, con vistas a la construcción de esa transformación. Cualquier cambio en la correlación de fuerzas políticas va a precisar, como mínimo, de una nueva fase de ascenso de los movimientos de masa, sobre todo, los de las grandes ciudades. Es en eso que precisamos pensar.
Tal vez nunca, en la historia del capitalismo brasileño, haya existido tanta gente con tanto tiempo disponible, ya que el número de personas con empleos “formales” y jornadas regulares de trabajo viene decreciendo cada día. De acuerdo con datos oficiales, más del 60% de los trabajadores brasileños no posee registro, trabajando sin ningún derecho o garantía. En la periferia de las grandes metrópolis, ese número es aún mayor (en algunos censos que realizamos en campamentos de sin techo, no llega a 20% el número de trabajadores registrados). En los barrios más pobres de la ciudad, se va volviendo raro encontrar a alguien que trabaje todos los santos días. Pero ese tiempo disponible es, en principio, índice de una tragedia social: él es sinónimo de desesperación, pues nunca se sabe si la semana que viene va a haber trabajo, o sea, si va a haber dinero; gran parte de este tiempo, o se gasta en la búsqueda de una “changa” cualquiera, o es desperdiciado en los síntomas de la angustia y de la culpa del desempleado: frente a la televisión, en el bar de la esquina, vagando sin destino por la ciudad, entre otras tácticas para intentar olvidar los problemas que no parecen tener solución. ¿Qué decir, por ejemplo, de la masa de jóvenes, que representan, en São Paulo, nada menos que el 70% de los desempleados, y son hoy el mayor combustible para la creciente industria del crimen?
¿Y si todo ese ahorro de tiempo fuese organizado y canalizado en un proyecto político de construcción del tan soñado “poder popular”? Es verdad que eso ya ocurre, embrionariamente, en algunos movimientos sociales (sino también en los millones de ONGs que infectan las periferias urbanas, cuyo interés, en general, no va más allá de minimizar las cicatrices dejadas por el capitalismo salvaje, en cuanto simplemente reproducen la lógica del sistema). Pero, y si, contrariando la lógica de desperdicio de tiempo del capitalismo, fuésemos capaces de planear el uso racional de todo ese potencial no aprovechado por la economía de mercado en favor de la creación de un instrumento político de organización comunitaria y de luchas para las trabajadoras y trabajadores, subvirtiendo la lógica del capital?
Ya existen interesantes ejemplos de este tipo de organización popular, como es el caso de los movimientos de desocupados en la Argentina (piqueteros), que partiendo de la reivindicación de una “renta mínima”, fueron capaces de organizar centenas de ollas comunitarias, huertas, panaderías, talleres textiles, espacios de educación popular, cooperativas de construcción civil y de sistema de agua, principalmente en la periferia de Buenos Aires (pero también en el interior del país); o aún, el ejemplo de las “Juntas Vecinales” (asociaciones de moradores) de El Alto, en la periferia de la capital boliviana, La Paz. Se trata de una ciudad de 800 mil habitantes, en la que hasta muy recientemente, lo poco que había de infra-estructura era prácticamente toda construida con el trabajo comunitario de las más de 500 “Juntas”, a partir del viejo sistema indígena de “rotación” entre las familias, en el que se divide el trabajo, cupiendo a cada una de las familias de las “Juntas” la tarea de trabajar por algunos días, hasta que otras familias las substituyan.
Tanto en un caso, como en otro, queda la lección de que las iniciativas comunitarias de organización de este “ahorro social de tiempo disponible” - partiendo de necesidades primarias no satisfechas (comida, trabajo, educación, servicios básicos etc.) - si fuesen politizadas, acompañadas de permanentes discusiones colectivas, en espacios donde confluyan trabajo colectivo, organización para luchas, educación popular y actividades culturales y festivas, en espacios donde los sujetos actuemos y pensemos sobre nuestras prácticas, que nos ayuden a elaborar el significado de estas iniciativas comunitarias y la necesidad de avanzar en torno de un proyecto político alternativo, pueden despertar la capacidad de movilización popular, un tanto adormecida después de la tempestad neoliberal que barrió nuestro continente en las dos últimas décadas (los más viejos llamarían a esto “soviets” de la periferia...).
No es en vano que los movimientos piqueteros (a pesar de sus límites políticos y del reflujo de los últimos dos años) fueron responsables por las mayores movilizaciones en la historia reciente de la Argentina, y que El Alto fue el epicentro de los levantamientos populares que ya derrumbaron a dos presidentes bolivianos en los últimos años. Para tener fuerza en las calles, es preciso primero tener fuerza en lo cotidiano de la comunidad. El nivel de organización de un levantamiento depende de la capacidad cotidiana de organización popular. Para eso, es fundamental el control autónomo del tiempo socialmente disponible. Por ejemplo, en El Alto, cuando la caída del entonces presidente Sánchez de Losada, hubo bloqueos de las salidas de La Paz que llegaron a durar más de un mes, causando serios trastornos a los dueños del poder. Esto sólo fue posible porque las familias supieron utilizar, para la lucha, el mismo mecanismo de “rotación de las tareas” que utilizan en el día a día para construir una calle, un centro comunitario o una huerta. O sea, se trata de crear y consolidar espacios donde este tiempo disponible pueda ser utilizado y vivido de manera distinta de la lógica capitalista, no como un tiempo de desesperación individual, sino como un tiempo de construcción colectiva, que posibilite la formación de nuevas formas de vínculos entre las personas, bien distintos de los frágiles vínculos creados por los intereses de lucro de los patrones 2.
No se trata de una tarea simple. Tropezamos con la falta de recursos y de estructura, con los poderes locales, que actúan en las periferias al mando de los dueños del poder, y también con nuestras fallas de organización. Pero no tenemos alternativa. Ya llegamos al fondo del pozo. Y la situación de las periferias urbanas, en Brasil y en América Latina, nos reclama respuestas urgentes.
¿Será que aún tenemos tiempo?
Militante del Movimiento de los Trabajadores Sin Techo (MTST)
El MTST (Movimiento de los Trabajadores Sin Techo) viene intentando, hace algunos meses, impulsar la construcción de “núcleos populares” en barrios de la periferia sur y oeste de São Paulo, con el objetivo de dar continuidad al trabajo de base en la región, después de la realización de dos grandes ocupaciones entre 2005 y 2007, que llegaron a movilizar más de 4 mil familias. Ese trabajo es facilitado por la referencia política que el movimiento adquiere con las familias que participaron de los campamentos, posibilitando nuestra entrada en barrios disputados por distintas fuerzas locales (católicos, evangélicos, narcotráfico, concejales, ONGs, etc.). Sería algo como un “sindicato del pueblo pobre de la periferia”, una vez que se trata de una población – los desocupados y precarizados, la mayoría del pueblo de la ciudad – desprovista de cualquier instrumento de organización y de lucha, sin la cual se hace difícil imaginar un verdadero ascenso de las luchas urbanas.
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